Capítulo 06 - A chave de um destino

Após cumprimentar Thomas Baker, John ameaça começar um conversa, e é interrompido por Baker:

- Desculpe Sr. Brown, vamos até a sala para conversarmos melhor.

John acena com a cabeça, e Tom os conduz até uma sala ampla, com diversos estofados e poltronas, e senta-se em uma delas, uma com estilo modernista, do famoso modelo Egg vendidos em todo o mundo. John acompanha-o, e também senta-se em uma dessas poltronas confortáveis dispostas de forma em que todos fiquem uns de frente para os outros. Tom então estica seu braço e pega um frasco metálico, levando à boca. Ele inicia a conversa.

- Bom, desculpe o mau jeito, posso lhe oferecer algo para beber John ? – diz Thomas, com sorriso de bons amigos.

- Um uísque, sem gelo, por favor. – John pede ao anfitrião, acendendo um charuto logo em seguida.

Tom acena com sua mão para o alto, e de uma das sombras que aquele ambiente sem janelas propicia, sai uma moça jovem, vestindo um uniforme de arrumadeira, trazendo uma bandeja com uma garrafa de uísque e um copo em cima. Ela chega próximo a John, serve o copo com a bebida, e sai, sem dizer uma só palavra. John dá um gole na bebida, e percebe ser um uísque de alta qualidade, algo de se esperar vindo de um grande empresário dono da Kromus Corp.

- Pronto John, pode começar a sabatina. – diz Thomas em tom de brincadeira.

John ajeita-se na poltrona, e começa a perguntar:

Bom, Baker, você sabe que não estamos muito, como posso dizer, “simpáticos” com suas atitutes perante a cidade, e realmente isso nos preocupa. Antes de entrar nos reais assuntos que nos trouxeram até aqui hoje, peço licença para ser um tanto quanto mais curioso do que eu deveria.

- “Claro John, pergunte o que quiser, estou disposto a esclarecer suas dúvidas sobre os últimos acontecimentos. Verás que não sou mal como todos pensam que sou.”

Primeiro, gostaria de saber quando você adquiriu essa maldição? se pode ser chamada dessa maneira, com certeza muitas pessoas achariam uma benção, afinal, você deve saber bem como são os humanos, ambiciosos.

- “Olha John, isso é o mesmo que perguntar sobre sua vida pessoal, quem foram seus amores, quem é sua familia ou se você se da bem com eles. É uma coisa sua. Não vou responder a isso, pois acredito ser de total irrelevância. Posso te dizer que quando cheguei a cidade, já fui amaldiçoado com esta vida.”

Entendo, tudo bem. Outra coisa Baker, a única que consigo me lembrar à respeito da natureza de vocês, vampiros, é que normalmente àquele que fez isso com você deveria tê-lo “criado” dentro desse novo mundo. Não aconteceu isso com você? Ele não te ensinou nada?

- “Não sei de onde tirou isso John, como sabe assim sobre nós? Uma coisa eu te garanto firmamente, com todas as minhas forças, não existe pior sensação que essa, isso eu te garanto meu amigo. E também mal conheci o desgraçado que me fez passar por tamanha provação. Espero um dia ainda encontra-lo e faze-lo pagar pelo o que fez.”

Existem outros como você em Temperance?

- “Aonde você menos esperar.”

Certo Baker, já chega de ficar me intrometendo em sua vida, vamos ao que interessa. O que você pretende com Elisa Courtwise?

- “Eliza tenta me enfrentar. E o pior, eu ainda não entendi o porquê. Faço de tudo para melhorar a vida daquela mulher, e ela sempre põe alguma coisa ou alguém em meu caminho. Nem parece que nos conhecemos a tanto tempo. Queria conversar com ela, expor meu lado, mas ela não ouve. Não adianta John, qualquer que seja a situação, as femêas de uma raça sempre são as mesmas, não mudam nunca.”

Entendo um pouco, mas o que me preocupa é a reação dela com tudo isso, afinal, ela sabe o que você é realmente? Não sei exatamente à que ponto Elisa esta envolvida com o mundo sobrenatural, e, como a maioria dos humanos, talvez isso a perturba-se um pouco.

- “Eliza tem conhecimento de muito mais coisas do que você pode imaginar John. Eliza viajou os quatro cantos do planeta com praticamente um guia turistico do ocultismo.” – Tom solta uma risada e logo continua – “Brincadeiras a parte, ela já sabia muita coisa antes de chegar aqui John, pode ficar sussegado.”

Vá devagar com a mulher, não a faça enlouquecer Baker, já temos loucos demais nessa cidade.

- “Concordo.” – Tom pega o frasco novamente e dá 3 goles do líquido em seu interior.

Thoman Clinton, esse cara, sempre no lugar certo, e na hora certa, pelo jeito hoje ele estava no lugar errado, na hora errada não é? Ele nos ligou aqui da sua sede, pelo menos acredito que tenha sido ele, afinal, qual é a desse cara?

- “Thomas Clinton realmente está aqui. Ele veio querendo falar comigo. O assunto ainda não sei, mas sei que está neste momento conversando com meu pessoal do recursos humanos. Ele é um pobre homem com a alma perturbada, só isso pelo o que eu sei.”

Certo. Próxima dúvida é em relação à Doorman of Truth, o que eles fazem aqui, já que inventaram essa lenda de ser uma sociedade maligna, para que? amedrontar todos para que ninguém quisesse descobrir seus segredos?

- “Como havia dito-lhe antes, a Dorman é uma cabala. E uma cabala guarda muitos segredos. Segredos que se forem revelados para os humanos, o mundo como você conhece hoje acabaria por terra. Eles inventaram ser uma sociedade secreta maligna e coisa e tal, mas você mesmo já viu que não é bem assim. Ellie Parker queria tanto encontra-los, mas por quê, se fazia parte dessa cabala também ? Juntou um bando de humanos com o mínimo de esclarecimentos para que ? Para virem aqui e me matarem ? Eu nem faço mais parte da Dorman…”

Ellie Parker e seu marido foram mortos, provavelmente por serem membros da Doorman, o que você sabe a respeito disso?

- “Com certeza Ellie foi uma queima de arquivo. Provavelmente estava mexendo em coisas em que não devia. O marido de Ellie foi morto há anos, mas sua morte não foi causada pela cabala em si, foi culpa dela.”

Culpa dela?

- “Sim. Ellie foi negligente ao revelar ao marido que tinha algo a ver com a Cabala. Isso atissou seus instintos e numa das procuras acabou sendo assassinato, e sua morte dada como obra da Dorman pela própria Ellie. Nunca entendi direito o porque, mas nessa época já não me preocupava com coisas assim …”

E os dois Padres, Baker, o que você sabe sobre eles? o Padre Joseph Lincoln, que desapareceu a algum tempo, que, alias, não sei se você sabe, achamos seu corpo no antigo locus dos Destituidos. E esse novo Padre? Richard se não me engano, não sei, mas pelo que já ouvi, ele esconde algo.

- “Ainda não conheci esse Padre Richard. Dizem que ele chegou quieto na cidade, sem fazer muito escandalo com o sumiço de Joseph. Cara normal eu penso. Joseph Lincoln … era um bom homem. Não sei se descobriram, mas ele fazia parte também da Doorman of Truth. Meio bombástica essa entrevista não acha ?” – Tom ajeita-se na cadeira e faz uma cara de quem está realmente interessando no que vem a seguir.

Um assunto que não me agradou nenhum pouco, e com certeza Luna não ficou muito contente com isso, mas, o que você fez para entregar os antigos Destituidos da cidade?

- “Na verdade, eles fizeram isso por conta própria. Apenas retirei o espirito Kiathu do território dos Puros, e fiz com que ele fugisse para o lago. Com isso, os Destituidos viram que um espirito de grande poder passou pelo chamado Dromo, e quiseram com todas as forças expulsa-lo de volta. Mas, assim como um cachorro que atravessa uma rodovia porque viu um gato do outro lado, foram apanhados de surpresa. O líder dos que você chama de Puros é um caçador exímio. Tenho medo do que possa fazer quando descontrolado.”

Entendi, eles não perceberam a emboscada em que iriam cair, e foram pegos desprevinidos pelos Puros.

- “Exatamente John. Como vê, uma simples consequência da vida.”

Ainda em relação à eles, como você pretende acabar com os puros para nós?

- “Irei pôr meus melhores agentes atrás destes, vou cobrar alguns favores, em breve volto com noticias. Agora, em relação a vocês ? Eu nunca tive a intenção de retirar vocês do meu caminho. Soube que chegaram a cidade quando foram na inauguração do museu de Eliza. Mas até então vocês nunca atravessaram meu caminho e muito pelo contrário, PRECISO da ajuda de vocês. Seu grupo é o único que agora pode me ajudar a cumprir meu objetivo.”

Agora a melhor parte, isso realmente me intriga Baker, como você conseguiu fazer Kiathu atravessar o Dromo e vir parar exatamente no lugar que você precisava dele?

- “Kiathu era um grande problema para mim. Com ele sugando o lócus dos Puros, eles viviam invadindo as florestas e tomando terras, causando o maior panico na população. O que fiz foi remover o Kiathu de seu lugar original, com base em alguns manuscritos, e usando meu corpo como isca, fiz com que ele entrasse neste lado, assim deixava de absorver o poder dos Puros e eles me deixariam instalar a UFEKS II em paz. Depois o expulsei para o lago no terreno da UFEKS II. Deu um trabalho danado, mas deu certo.”

Você utilizou um grande ritual para trazer Kiathu, você mesmo o executou?

- “Obtive ajuda. Claro que não iria conseguir sem ter uma alma. Pois é John, sou um desalmado literal. Pedi para que Eliza me ajudasse, mas ela, como sempre, negou-se a todo momento. Portanto tive que apelar para aquele que vocês chamam de Jack Squad. O assassino serial sabe ?! Pois é, você acredita que ele na realidade não é nenhum simples assassino. Mas é melhor que todos pensem que sim …”

Jack Squad, bem que eu pensei que ele não era um simples psicopata. Quer dizer que as mortes que ele causou ajudava você a realizar o ritual? Interessante Baker.

- “Jack é um homem pertubado. Tem seus próprios objetivos, e eles para mim nunca foram interessantes. As mortes que ele causou não foram para o ritual, foram para beneficio próprio. A extração do espirito para o lado material não necessitava de nenhuma fonte humana. Mas sim, ele me ajudou a traduzir os manuscritos e puxa-lo para esse lado. Muita coisa ainda está encoberta por ele, e essa história de ele ser um assassino serial que está preso ainda não consegui engolir direito. Se ele está preso, é porque quer, isso eu sei.”

Sua determinação é louvável Baker, mas pelo que percebo você não conhece muito a respeito dos espiritos, e do que eles são capazes.

- “Confesso, não tenho muito conhecimento em espirítos, e não sei até onde podem chegar. Mas isso será arrumado, se conseguir recuperar o que procuro …”

Eu tive um contato direto com Kiathu, e realmente fiquei preucupado com as proporções que esse espirito tomou, ele está começando a interferir no mundo material Baker, os espiritos não podem fazer isso, ele está se descontrolando, sugando tudo o que pode, nosso locus já foi, logo o locus dos puros será destruido, e depois sua empresa não será o suficiente para satisfazer os desejos dele, você consegue imaginar o que isso poderia acarretar? Pois eu não consigo, não tenho tanta maldade dentro de mim para imaginar tal coisa.

- “Como disse John, acredito que isso não será problema se pudermos recuperar o artefato que procuro. Mas tenho um plano de emergência, caso nada de certo, não se preocupe.”

Certo, esse artefado, o que ele faz?

- “Marcador do destino, é como é conhecido este artefato. Ele é capaz de dar uma segunda chance à uma alma perdida. Dizem que foi um medidor de tempo à muitos invernos fabricado, e o nome do artesão foi perdido no decorrer dos séculos. As partes dele vieram de uma realidade alternativa, e alguns historiadores ocultistas diziam ser de alienígenas ou de seres superiores, acredito na segunda opção, e acho que você também deveria. A lenda diz que quem possuir o item, poderá voltar e reconstruir partes de sua história, mas por um preço. Esse valor ainda não sei, mas quando obte-lo não importará, irei paga-lo a qualquer custo. Preciso da minha vida de volta.”

John se mexe na cadeira, apaga o charuto e acende outro logo em seguida, pedindo mais um copo de uísque para Thomas Baker.

Mexer com o tempo Baker? Isso é insano, ninguém deve mexer com o tempo, as consequencias podem ser catastróficas. Por acaso você está perto de encontrar esse item? Qual foram suas ultimas pistas à respeito?

- “A ultima vez que soube, ele tinha vindo para cá, para Temperance. Descobri isso há pouco menos de 2 anos, e até agora não o encontrei. Tentam de qualquer forma me afastar dele, todos parecem estar contra mim. Apenas o quero. Não quero fazer mal a ninguém, mas o preconceito é forte aqui.”

Você está ciente que fazendo tudo isso você pode estar destruindo a curso natural do mundo, destruindo espiritos, seres, e até mesmo os humanos, e isso tudo por um motivo, que se me permite dizer, egoísta. Não sei se você sabe um pouco sobre nós, lobisomens, mas nós também não nascemos assim, nos tornamos com o tempo, e isso pode destruir a vida de muitos de nós, mas essa antiga vida não importa mais, nossa missão não é tentar voltar ao que éramos, ou então tentar fingirmos sermos seres humanos comuns, a unica coisa que tentamos é manter o mundo, tanto espiritual quanto material em ordem, é para isso que existimos, para cuidar do mundo, e impedir que outros seres aproveitem-se de seus “poderes” especiais para manipular o mundo, Luna nos ajuda e nosguia em nossa missão, nos dando conhecimentos além do normal.

Thomas pede para que sua empregada sirva novamente o convidado, e acompanha-o com seu frasco metálico propondo um brinde: “Aos que já foram, Aos que virão, e aos que ficarão.”

- “Entendo tudo isso que você diz John, mas pense só. Eu não sou natural. Você não é natural. Onde eu quero chegar é que usando o marcador, eu não irei tirar ninguem do curso, muito pelo contrário, eu saí do curso natural quando virei essa coisa, agora eu me reinserindo, talvez a coisa siga diferente. Natural, como você mesmo disse anteriormente John. E sim, entendo que estou mexendo em colméias, atissando as abelhas para cima de mim. Mas você nunca teve um objetivo ao que vale a pena dar a sua vida ?”

Já Baker, muitas coisas, partes da minha missão à luz de Luna vale a pena dar a minha vida, mas a minha vida, eu sou o senhor do meu próprio destino, posso fazer o que quiser dele, assim como você com o seu, mas não tenho o direito de mudar, parar ou voltar o ciclo espiritual e material do mundo, vai contra tudo que acredito.

Meu caro, ainda não entendi como você quer que ajudemos você, explique-me, por favor.

- “Vocês são criaturas fantásticas John. Estou realmente fascinado em conversar com você desta maneira, acredito que estamos chegando num concenso aqui. Pelo o que eu soube, o marcador está do outro lado do Dromo, mas aqui em Temperance. E como havia dito anteriormente, não sou um expert em espiritos e essas coisas de passagens e etc … Já vocês, são mestres na arte da travessia e contato com eles. Preciso saber se o Marcador encontra-se do outro lado, e vocês peguem ele para mim, caso esteja.”

E se isso tudo não tiver volta Baker, o que você vai fazer?

- “Vai ter volta John, já lhe disse … tenho um plano de emergência caso nada dê certo.”

Baker, não posso te garantir nada, meus companheiros de Alcatéia não são como eu, ele não estão nenhum pouco simpáticos à você, é de minha natureza querer descobrir os dois lados da moeda antes de tomar uma atitude, antes de julgar alguém, mas não ache que isso me impediria de agir quando eu ver algo que eu não considere certo.

- “Seus companheiros foram corrompidos pela sabedoria popular. Deixam muitas coisas superficiais julgarem suas atitudes, sem saber exatamente a fundo o que está acontecendo. Um jornal publica algo, aquilo vira de extrema verdade para todos. Posso não ser perfeito John, mas sei exatamente quais são meus objetivos e onde devo pisar ou não.”

Verei o que consigo fazer, enquanto isso, peço que eu possa ter acesso à você, pessoalmente, apenas eu, para podermos nos falar mais facilmente, sem agressões, faremos desses encontros um momento entre cavalheiros, onde possamos falar abertamente um com o outro.

- “John, pode vir a hora que quiser, sabe onde me encontrar. Adorei nossa conversa, e acredito ter ajudado em alguma coisa para você continuar seu caminho. Minha casa está aberta, você pode entrar a hora que quiser.”

Isso é importantissimo Baker, está além de mim, além de você, além de tudo o que você já viu, mexer com espiritos não é brincadeira, com o tempo menos ainda, você tem que ponderar muito o que pretende fazer com esse artefato. Tome cuidado, e que fique bem claro que isso não é um conselho Baker, e sim, um aviso.

- “Fique tranquilo novo amigo. Vá em paz.” – Thomas Baker levanta-se da poltrona, e estica o braço, cumprimentando novamente John.

Até breve, Baker, logo nos veremos novamente.

John coloca seu chapéu, vira-se, e caminha em direção ao elevador do outro lado do jardim para encontrar seu companheiros de Alcatéia que aguardavam-no na sala ao lado.

Capítulo 06 - A chave de um destino

Temperance Jones