Transformação

30 de Abril de 2008 – Divisa com a Reserva Florestal de Shoshone – Geórgia. 02h12min

Já era noite quando Landon voltava do congresso de astrologia na cidade vizinha, ele havia tomado algumas cervejas, mas o caminho seguia tranquilo desde seu início, e agora faltam apenas 20 minutos até o chalé.
Do meio da mata que circunda a estrada sai uma forma escura e descomunal, ela parece etérea. Passa tão rápido que a única coisa que ele consegue fazer é frear o carro.
O airbag infla e o astrólogo reclama. Quando o ar abaixa ele vê, parado no meio da estrada em frente aos seus faróis um ser bípede feito de sombras e com olhos grandes e vermelhos. Ele encara a criatura que some de um momento para o outro. Ele olha no relógio do painel e vê que são quase 4:30 da manhã, mais de duas horas a mais do que quando parou.

02 de Maio de 2008 – Wilt-Leaf Chale, – Lander 15h00min.

Esse foi o último, e único, cliente do dia. Parece que ninguém mais liga para mapas astrais e destino. Ainda mais aqueles que nem são tão verdadeiros.
Ele senta numa poltrona velha e surrada de couro com uma caneca de chá e observa o desenho que fez daquilo que ele viu na estrada há alguns dias atrás. É uma coisa disforme e negra, com olhos escuros como vinho tinto.
É como se fossem sombras. Isso faz ele se lembrar de supostos casos estranhos ocorridos há um ou dois anos no país. Pessoas que diziam ter visto um ser com asas e olhos vermelhos.
Com certeza alguém colocou algo na minha cerveja naquela noite.
Chega de pensar nessas coisas, tenho muito que fazer com esse novo mapa.

02 de Maio de 2008 – Wilt-Leaf Chale, Lander. 21h00min.

Ocupado com seu compasso, régua e os outros recursos de seu trabalho, a luz da lua entra pela janela principal em frente a sua mesa. Prismas balançam presos no teto e o desenho do ser de sombras está preso na parede. Ele não consegue se concentrar aquilo ainda o incomoda.
Ao longe na mata algo se move. Ele olha e se sente impelido a sair.
Do lado de fora do chalé ele vê algo correndo na mata novamente, acende sua lanterna e vai correndo na direção.
Dez minutos se passam e ele ainda persegue aquilo pela mata, logo a luz do chalé não estará mais visível e ele se perderá em meio às árvores. Ele ouve um uivo e recebe um golpe forte nas costas. Ao se virar ele fica surpreso com o que vê.

Horas depois.

Ao acordar ele vê um teto de palha e sente-se estranho. Está usando roupas diferentes das que estava usando antes, apenas uma calça de algodão. Ele está deitado numa cama de palha.
Um cheiro de ervas e fogo inunda isso que parece uma casa de madeira. Um velho está sentado ao lado da cama improvisada.

Não se levante você passou por um sério risco.
O que aconteceu? Quem é você e o que aconteceu comigo?
Eu sou um velho que vive por essas florestas, chamam-me de Velho e Curandeiro. Você sofreu a transformação, talvez com isso você se lembre. Vamos beba.

Sem dar tempo para protestos o velho logo empurra uma cuia com um líquido amargo na sua boca e rapidamente ele adormece, sem tempo para mais perguntas. Porém, não é um sono sem sonhos.

Ele vê em seus sonhos uma mata escura e quando se vira para trás vê uma aranha descomunal, com as patas dianteiras levantadas. Estranhamente ele parte para cima do bicho e bate nele com toda sua força, que no sonho parece muita. Depois de alguns golpes dele na aranha e do animal nele, um lobo vem correndo na sua direção e pula em cima da aranha, que quase instantaneamente desaparece num monte de sombras. Ele cai cansado no sonho e acorda na casa do Curandeiro.

O mesmo cheiro de ervas inunda o lugar e o velho está próximo da lareira com um longo cachimbo. Desta vez ele consegue se levantar.

Vejo que está melhor já, consegue se levantar sem muita dificuldade. O antídoto está funcionando como eu esperava
Na verdade, ainda dói um pouco esse corte grande que eu tenho aqui. Aquele sonho…
Não foi um sonho se é o que quer saber, você realmente viveu aquilo e agora é um de nós. És Uratha, um de muitos.
Uratha? De que lendas tolas está falando velho?
Lendas tolas? És jovem, e todo jovem é tolo. Ouça aqueles que são mais velhos pois eles detém a sabedoria das eras. Agora se sente e tome um pouco deste chá comigo, pois a noite é fria e cheia de terrores.

Três Meses Depois.

Nesses últimos três meses ele não sentiu vontade de deixar a casa do velho nem mesmo para ir a sua própria casa, de alguma forma, era como se aquele fosse o seu lugar e lá ele se sentia bem.
Ele descobriu que o nome do velho na verdade é Vento Uivante. Vento Uivante lhe ensinou o que é um Gauru, o que eles fazem e o porquê eles existem. Ele lhe mostrou seus ritos de cura e o ensinou a fazer emplastros de ervas e chás que curam.
Todas as noites ele dormia na cama de palha ao lado da janela que dava para o lago. Vento Ululante dizia que aquilo era um Locus poderoso, e que era um privilégio estar ali.

Sob a luz de Luna ele foi treinado e o seu mestre o ensinou os preceitos da casa da Morte das Sombras Descarnadas. Foi-lhe mostrado como tratar de espíritos e como cuidar do Dromo.

Vento Uivante dizia que o estava preparando para o futuro e que esse futuro era importante para todos eles. Durante essa jornada ele reuniu vários amuletos sendo que muitos deles ele mesmo confeccionou.

Até que chegou um dia em que o Velho disse que era chagada a hora de partir. Isso foi quase um ano e meio depois da primeira transformação. Sentados na beira do Lago ele conversou com o jovem Sombra.

Foi para este dia que eu te preparei até agora, hoje você deve partir. Ensinei-te tudo o que podia ter ensinado. Você chegou aqui um charlatão e agora é um lobo. Agora deve partir e levar todo o conhecimento que eu lhe dei. Os espíritos precisam de você em outro lugar.
Outro lugar? Onde?
Os espíritos me avisaram de um desequilíbrio em um lugar longe daqui. Chamam a cidade de Temperance na Califórnia, mas esse não é o seu verdadeiro nome. Eles disseram que algo terrível está acontecendo por lá.
Se os espíritos e o senhor disseram, é para lá que irei. Parto amanhã a primeira luz da aurora.
Sim, e use meu nome. Você deve continuar usando-o assim como eu o usei, os espíritos me disseram que minha vida está quase no fim.

O silêncio predominou naquela noite.

Transformação

Temperance Zeck